Cinco e considerações sobre um soneto
Foi muito bela a manifestação de carinho vinda de todos os cantos, que recebi por causa do aniversário do sítio. Seja através do blog, do e-mail ou mesmo do meu xodó Livro de Visitas, deu para encher de novo o pote de motivação que eu algumas vezes necessito para dar continuidade a esse projeto. É bom ver os poetas Joel Alves e Vilma Oliveira voltando... a Azoriana, que sempre nos envia versos transatlânticos de qualidade... Obrigado, obrigado!
Destaco esta semana o soneto LIBERDADE, do Alves Rangel. Mesmo sendo apenas 14 versos, é possível perceber nele diversos elementos que caracterizam uma grande obra. Vamos a alguns:
1) A rima rica. A terminação "oura", que abre o soneto, além de bastante sonora é clássica. Camões a utilizou, no masculino, num dos sonetos que eu li quando pequeno e que - mais por esquecimento do que por descuido - não havia publicado ainda no sítio:
"De quantas graças tinha, a Natureza
fez um belo e riquíssimo tesouro;
e com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
do belo rostro as rosas, por quem mouro;
no cabelo o valor do metal louro;
no peito a neve em que a alma tenho acesa.
(...)"
Já está publicado!
Voltando ao poeta Alves, imagino que ele até tentou encontrar outras rimas além de "imorredoura", "doura" e "loura" ("tesoura" e "vassoura" não cabiam no tema; outras, como "corredoura" ou "espalhadoura" rebuscariam demais a composição e excesso cansa). Optou por "fora", pretérito mais-que-perfeito do verbo ir, que não rima dentro dos padrões exigidos, todavia prende-se à mensagem de um quarteto mais-que-perfeito. "Uta" e "eno" também são terminações difíceis...
2) A apresentação. O primeiro verso é uma abreviação de todo o soneto, uma abertura que carrega em si o conteúdo dos próximos treze. Nos tercetos, percebe-se como o texto "caminha" para o final. É bonito isso, porém não é fácil. Lembra-me Camões novamente, com "Tanto de meu estado me acho incerto" ; ou Gregório de Mattos: "Carregado de mim ando no mundo"... Dois pontos para o Alves!
3) O que chamo de "ida e volta". ESSE é um elemento raro! Verei se consigo descrevê-lo:
"Procuro a liberdade imorredoura
do pássaro voando na amplidão"
e, alguns versos depois,
"Na liberdade da gaivota astuta,
sobre as asas azuis do mar sereno"
mostram que o poeta, que poderia ter usado outras metáforas para explicar o sentimento de liberdade, resolveu retornar à ave do começo ao tentar concluir o soneto. A liberdade da ave, ou seja, da gaivota, aparece novamente para reforçar a sensação de leveza que os versos produzem... Ir e voltar, em apenas 14 versos, é como conseguir navegar numa piscina. Não fui tão feliz na metáfora, mas acho que serve. Círculo vicioso é, a meu ver, o exemplo maior dessa conquista. Eu consegui isso (mais ou menos) no soneto Bênção, ao falar sobre as portas que atravessamos.
Enfim, quero concluir dando os meus parabéns ao sonetista. E, para terminar, um soneto que fiz em homenagem ao aniversário do sítio, da série "números", Cinco (foi difícil encontrar coisas que se destacam por esse número; tive, mais uma vez, que improvisar):
Cinco
Por cinco dias, trânsito perverso,
Nas cinco zonas dessa capital...
Cinco sentidos sentem um sinal
Do amor, o cinco estrelas do universo.
Ao chá das cinco, neles me disperso -
Cinco vogais celebram cada qual,
Cinco linhas na pauta musical,
Com cinco dedos que semeiam verso...
Se cinco jogadores de basquete
E os de vôlei, que acaba ao quinto set,
Reúnem cinco elos ou correntes,
Façam o mesmo as forças alfabéticas,
Cinco pares de sílabas poéticas,
Com quem ama, por cinco continentes.
Bernardo Trancoso
Abraços e até a próxima!


2 comentários:
Obrigada por referenciar-me de forma tão simpática. Gostei de ler "versos transatlânticos" porque o são mesmo :) mas ainda estou com muitas dúvidas nessa tal qualidade.
Vou continuar a visitar o blog e talvez me aponte alguma correcção.
Neste momento quedo-me no silêncio da inspiração. :)
Abraços e até à próxima
quero saber mais sobre o soneto"de quantas gracas tinha, a natureza"tenho teste sobre esse soneto e preciso de saber os tipos de rima,recursos expressivos,a analise etc.gostaria que me podesse ajudar.
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