Versos eternos
"...em que basta um momento de poesia/ para nos dar a eternidade inteira..."
Mário Quintana deve ter ficado satisfeito ao concluir o maravilhoso soneto "Ah! Os relógios", do qual extraí os versos acima... Em linhas gerais, sua obra fala sobre a irrelevância do tempo como elemento regulador da vida. A alguns, irrelevante pode parecer a sua análise, mas não o é. O poeta está certo. Que o comprovem os poetas a seguir:
"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada/ E triste, e triste e fatigado eu vinha..." (Bilac)
"Amor é um fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente..." (Camões)
"Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure." (Vinícius)
Bilac, Camões, Vinícius e tantos outros atravessaram o plano material, físico e finito para outro espiritual, abstrato e eterno ao nos deixar o legado de seus versos. Assim como diz o anúncio de uma bebida que vi esses dias na televisão, fizeram algo notável e se tornaram imortais. Não é à toa que assim são chamados os membros da Academia Brasileira de Letras, cujas "vidas" - como influenciadoras dos rumos que a sociedade toma - não conhecem o outro lado... Isso ocorre não apenas porque eles figuram na lembrança dos que conviveram com suas realizações, mas porque continuam sendo ensinados como representantes fiéis da nossa Língua.
Para se ter uma idéia, dos três pares de versos acima, todos apareceram em vestibulares do país nos últimos anos. São exemplos freqüentes nas gramáticas e salas de aula. São traduzidos em canções, geram discussões em torno do seu significado, inspiram outros poetas (vejo uma nata de jovens promessas surgindo no meu sítio)... Há - é certo - os que caçoam dessa importância atribuída à poesia. Como uma vestibulanda baiana de 16 anos que, na prova de Português, deu a sua interpretação para os versos supracitados de Camões:
"Ah! Camões, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e descobririas
que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente
falta de sexo!"
Imortais... São os livros. São as letras de músicas. São os poemas de amor. São as palavras que mantêm o encanto através dos tempos, mesmo que a história de seus autores e o contexto social em que estavam inseridos quando escreveram se esfumacem na cruel e fria realidade de cidades como a que vivo. Quem foi Camões? Um poeta que viveu em? Quando? O que fez? E Mário Quintana?...
Graças a Deus (e agradeço aos professores por isso), ainda vejo em muitas escolas a preocupação por manter viva - nos corações - a chama da poesia. "Grande é o poder de um pequeno verso", eu já disse... Experimente mandar Vinícius, junto a flores, a quem você ama:
"E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.", e verá que também estou certo.
Por fim, nessas minhas divagações que aspiram a imortalidade pelo simples fato de serem publicadas, citarei uma frase do Aldir Blanc, um dos grandes compositores desta terra:
"Mais importante do que todas as letras que fiz é ser cantado por alguém que não tem a menor idéia de quem eu seja."
Imortalidade é isso. Não consultem os relógios! Escrevam!


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