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domingo, 28 de março de 2010

Soneto Luz dissecado...

Conforme prometido, caro visitante, escolhi um soneto meu para "dissecação". É um dos mais recentes e também um dos que me deu mais trabalho para ficar pronto. Tentarei, através de cada verso, descrever regras e dicas que sigo ao compor aquele tipo de composição. O soneto escohido chama-se Luz, e pode ser lido de uma só vez aqui.

1. Os olhos meus, aos teus, não fazem jus

Uma das rimas do soneto, "us", já estava escolhida antes mesmo dele começar, porque rima com luz, embora houvesse a pretensão de incluir um caráter de adoração ao divino, religioso, nos versos. Neste sentido, pensei nas rimas cruz e Jesus e nas demais que poderiam acompanhá-las: conduz, traduz... A palavra jus surgiu depois, deixando Jesus de fora. Ainda assim, consegui inserir uma referência à sua imagem, mesmo que indiretamente, na figura dos condenados. Digamos que "us" é uma rima incomum (creio que é a primeira vez que uso, e isso é bom). Mas que fique claro: o fato de uma rima ser difícil não torna uma composição mais ou menos bela. É preciso saber usá-la.

2. Pois eles não conseguem absorver

Sempre que se emprega uma rima destas, há o risco de adotarmos só verbos, o que pode tornar a composição pobre. Em tais casos, será mister buscar substantivos ou outras classes gramaticais que combinem, menos a forma verbal. No caso, eu escolhi dois: ser - no sentido de criatura - e alvorecer (poderia usar prazer, poder). Às vezes, nós poetas não temos com a rima muita opção, como ocorre quando optamos por alguns advérbios: amável, censurável... Aí, fica difícil achar algo que rime e que também não pertença à mesma classe gramatical... Nota: mais uma vez, peço que você não adote como regra o que escrevi. Bons poetas repetem classes e até mesmo palavras para dar um significado especial aos seus versos (não é verdade, caro Drummond?). E, volta e meia, aparece um Caetano para desafiar as dificuldades e unir "flerte" com "ver-te". Não é poesia só, é Arte, com A maiúsculo! A dica é: fique atento para as repetições.

3. Toda essa luz que emana do teu ser

Eis que surge no corpo do soneto o seu título: "luz". O curioso é que, embora a rima "us" tenha partido desta palavra, ela não aparece no final de um verso, mas bem no meio do terceiro deles. E isso causa outro efeito, também interessante. Um verso usa a rima do anterior em sua metade, e o seguinte faz a mesma coisa, gerando - em termos de sonoridade - um poema dentro do outro. Chico Buarque é mestre em usar essa técnica. Outra maneira de obter uma rima interna é colocando palavras que rimam no meio de versos em sequência. Quer um exemplo? Rima perfeita.

4. E a um sentimento cego lhes conduz.

Deixando um pouco de lado a parte gramatical da composição, a palavra "amor" - com suas variações - é uma das mais empregadas nos sonetos do sítio, inclusive por mim. Parti do princípio de que não a usaria. Substituí-la pela metáfora "sentimento cego" pareceu-me, neste caso, uma aposta acertada, pois esta traz duplo sentido e reforça a magia do olhar que procuro decrever, que cega todos à volta. Confesso que, se pudesse, pararia o soneto por aqui. Levei dois dias para fazer a primeira estrofe e meses para completar o resto...

5. Como dois condenados numa cruz,

Este verso não faz sentido sem os anteriores. Tem até outro significado, se interpretado ao pé da letra. A ponte entre as duas primeiras estrofes não é item obrigatório, mas dá uma idéia de continuidade ao soneto, o que é válido. Volto ao Drummond para falar do soneto No Meio do Caminho: "E paramos de súbito no meio da estrada". Quem parou!? É preciso ler o que vem antes. Dois olhos como que condenados numa cruz...

6. Voltados para o Sol, no alvorecer,

Voltados para o Sol, voltados para o olhar que os fascina, do qual não conseguem se desviar... No alvorecer, na hora em que o Sol desponta gigante no horizonte, no momento em que a ilusão de ótica o torna maior...

7. Sentem-se deslumbrar sem merecer

Olhos que não merecem (afinal, são condenados) a visão que lhes encanta, mas que dela não podem fugir...

8. Tua visão, que a estrela reproduz.

A estrela Sol reproduz a visão do ser amado. E "visão", neste caso, também adquire um duplo sentido (proposital). A estrela é menor do que ela, porque aquela copia o que o que esta provoca ao olhar de quem escreve os versos... A partir daqui, compete-me não explorar tanto o que cada palavra quer dizer, até porque uma poesia, como arte que é, acaba sendo objeto de diversas interpretações. O "meu" Sol pode não ser o Sol de outra pessoa. É como um filme que lhe causa impacto, mas a mim parece banal, e vice-versa. Bom, acho que você entendeu...

9. São órgãos ofuscados de desejo

O primeiro terceto continua a descrever os olhos que se encantam. Não foi espontâneo. Tentei várias aproximações (parecia uma eternidade, uma cobrança constante, quase desisti), até que esta me pareceu a mais adequada. Bons sonetos costumam promover nos tercetos uma quebra na trajetória dos oito versos iniciais, de modo que tudo se junta no último verso ou na "chave de ouro", como alguns denominam a finalização do soneto. Não é o caso aqui... Apesar disso, a rima "ejo" só veio após ter pensado nas palavras finais da composição. Ao contrário do que parece, "desejo" não rima com "beijo". Talvez numa música, todavia num soneto isso seria uma aproximação grosseira. É o mesmo que rimar "muito" com "junto", ou "mais" com "paz". Fique atento para as falsas rimas.

10. Saboreando em cores cada parte

Este foi o último verso concluído, escrito inicialmente como "Buscando aproveitar de cada parte" e alterado logo após o soneto aparecer nas páginas do sítio. Não há problema nisso, também. A Internet permite que se reveja, que se altere um texto já publicado. Diferente de um livro impresso, que geralmente tem que esperar a próxima edição para ter os erros ou ambiguidades corrigidos. Aqui "luz", em teoria, é luz branca, e como o branco é a soma de todas as cores (quem me ensinou isto foi um livro do Ziraldo), acabei optando por mudar o verso depois de pronto. Até a famosa música "Garota de Ipanema" também tinha outra versão, antes de ser revisada e gravada por Jobim.

11. Disso que emites por todos os lados,

Eu preferia ter escrito "Disso que emanas", soa mais bonito, mas o verbo emanar já aparece no terceiro verso do soneto, de modo que pensei: por que deveria eu repetir se o dicionário e a criatividade dão tantas opções a quem escreve? Pense nisso sempre que for escrever algo. A repetição às vezes soa como preguiça de procurar outra palavra... E lembre-se, para escrever bem é preciso ler bastante, porque isso cria um vocabulário. Senão, as palavras não surgirão por milagre.

12. Mas não cabe perdão aos condenados

Referência dentro do soneto a algo que foi dito anteriormente é uma das maneiras mais usadas para fechar a composição. Confesso que a mim isto se torna difícil, porque catorze versos é um espaço muito curto para escrever algo e remontar o que foi dito, usando inclusive a mesma palavra: "condenados". A rima "ados" veio daqui, e depois surgiu o verso antes deste. Há escritores que fazem referências cruzadas o tempo inteiro em suas obras, como se tricotassem uma idéia. Pois, como a agulha do tricô que vai e vem, as palavras também dão voltas. Chico Buarque, com seu poema Construção, volta trazendo um exemplo do que tenciono dizer. Embora não seja um soneto, são poucas as palavras daquele que não se retomam na estrofe seguinte.

13. Que roubam tua luz para adorar-te

A rima "arte" aqui encontra uma forma verbal, homenageando Caetano... Olhos que são condenados por roubar a luz de outros, pousam como que pendurados em uma cruz... Eis que o poema se prepara para a conclusão:

14. (Só ver o quanto brilham se te vejo).

Por que usei os parênteses? Não sei dizer. Vinicius o fez em seu soneto mais celebrado. Creio que adotei-os porque queria expor um pensamento, um texto sussurado ao final, como que para explicar porque sinto os meus olhos culpados. Se é certo ou não, sigo uma lei que geralmente acompanha a arte: em toda obra, o desejo do autor é o que ao final se sobressai. C'est fini.

Realmente espero, através desta postagem, ter esclarecido a você o processo de formação que geralmente envolve uma obra deste tipo. Não é fácil. A saber: nem pretendo que ela seja considerada maior ou menor por causa do esforço que tive para desenvolvê-la. De fato, recuso-me veementemente a criticar qualquer obra de qualquer autor que não seja este que vos escreve. Aliás, este, inclusive, é o motivo por que escolhi versos meus para análise. Só faltou falar do que inspirou estes versos, mas isto eu deixo para você descobrir...

Até a semana que vem!

Um comentário:

Azoriana disse...

Bem-vindo!
Por acaso passei por aqui e vi que tinha regressado. Fico feliz por isso. Já estranhava a ausência mas o bom filho à casa torna realmente.
Toda a sua poesia é linda bem como o seu rosto.
Feliz aniversário com um grande atraso mas há sempre tempo para comemorar a vida.
Beijinhos!